Este artigo, de minha autoria, foi publicado na imprensa em setembro de 2002. Continua atual.
Vale a pena ler de novo.
"A TATUAGEM E O ENSINO
Uma tatuagem é para sempre. Na pele. Não importa o lugar, no corpo. Um curioso talvez indagaria: qual seria o motivo que levou esse sujeito a tatuar. Não importa. É uma tatuagem e a pessoa carrega pela vida afora uma figura idolatrada, uma flor, uma águia, um arabesco, um desenho psicodélico, um nome ou rosto amado. Faz parte do todo, diria Tennyson.
Assim como a tatuagem, o processo de aprendizagem, que tem diversos autores durante o percurso de crescimento do indivíduo, deixa marcas indeléveis. Pequenas incisões na pele interior do ser humano em formação contribuem para construir seu caráter, sua personalidade, seu aparato intelectual. Entretanto, se ocorrem pequenos descuidos na arquitetura da educação, atropelos verbais, castigos impostos, palavras impiedosas, comparações inadequadas, eis que pinças penetram no inconsciente do aprendiz e lá permanecem. Um registro. Dolorido registro muita vez impeditivo, limitador e castrador da realidade futura.
Ao longo de minha vivência com alunos dos cursos de comunicação e expressão verbal, interpretei cientificamente suas necessidades, expectativas e limitações. Foi possível constatar que a metáfora da tatuagem é verdadeira. Relatos levam, além da família, ao passado escolar, à inabilidade de alguém no trato de sintomas, criando traumas. No futuro não muito distante: ansiedade, pânico, bloqueios, gagueiras, “brancos” na memória, taquicardias, mal-estar, suor frio contemplam pessoas que desejariam se comunicar com eficiência e tranqüilidade e não conseguem. A inibição, a timidez, o pavor de falar diante das pessoas ou de certos ambientes, geralmente têm como origem: a escola e/ou a família. E como causa: a inabilidade, o despreparo ou o descuido de um professor ou dos pais. Na hora “h”, não perceberam que estavam aplicando uma tatuagem. As emoções vividas na infância e na adolescência contribuem, de forma indelével ou de forma contundente, para o equilíbrio emocional e o bem-estar do indivíduo.
A escola que, no atual panorama sócio-econômico do país, reflete problemas, metas pedagógicas, emoções e mudanças serve de estuário. A teoria da Piaget, de Vygotsky, a pedagogia dos oprimidos de Freire, a psicologia social de Pichón Riviere, a inter e a multidisciplinaridade, as múltiplas inteligências de Gardner e a inteligência emocional de Goleman constituem a linha complexa do relacionamento professor-aluno, no plano teórico. Jogue tudo fora. O que é preciso é entender o mundo do pequeno e jovem cidadão. Nada mais do que isso. Colocar no plano de aula não as metas, mas o coração, a sensibilidade, a criatividade, a energia da criança e do adolescente. A valorização do ser humano só pode ser alcançada com a prática interativa de uma comunicação integral, técnicas e habilidades de relacionamento interpessoal. O poder da comunicação modifica, amplia, aproxima até extremos divergentes. Em sala, no laboratório, na oficina, no grupo, na apresentação de trabalhos, individualmente, a comunicação deve ser vivenciada em todos os sentidos e por todos os integrantes do processo. Não só por alguns. Só assim as tatuagens que alienam a realidade interior serão suprimidas e teremos indivíduos dotados de plenitude crítica para sonhar com o poder de suas capacidades presentes. Não cerceadas, atrofiadas ou reduzidas.
* Silvio Luzardo, é professor e psicopedagogo
Fonte: Diario Catarinense, 2002; www.comnet.com.br; livro "Eu! Falando em Público", p. 163
