Com mais uma crise rolando no Senado Federal, republico um meu artigo-crônica do dia 16 de maio, do Diário Catarinense.
A situação do presidente do José Sarney, que se sustenta no cargo que não quer deixar, mesmo diante de tantas denúncias, nos fazem refletir sobre a posição "alheia" da opinião pública, talvez "desacreditada" ou, então, já acostumada com os encândalos que rolam no pedaço.
Releia, O Povo Bobo, e marque a sua posição.
"Julgava-se extinto. Havia indícios de uma cultura não muito civilizada teria habitado os confins daquela região tropical. Eram os bobos. De estatura mediana, ágeis em deixar as coisas para a última hora e no “fica-por-isso-mesmo”, amorenados e provenientes de um caldeamento étnico peculiar, eram pacíficos e não tinham vocação para a guerra. Ficavam longe de qualquer conflito. Tolerantes e ingênuos delegavam direitos para uma classe especial, a dos espertos. Ficavam apenas com as obrigações. Aliás, adoravam toda espécie de obrigação que significasse pagar tributos e não exigi-los. Era da natureza dos bobos não reclamar. Eram pacientes nas filas de assistência à saúde, com a ausência de médicos nos hospitais ou leitos para tratar suas dores, conformados com as promessas que não se realizavam, perseverantes em continuarem como sempre tinham sido. Bobos.
Os bobos esperavam que os espertos, uma classe erigida por eles, resolvesse suas inquietações. Mas, como consta aqui no genoma, eram bobos e não queriam problemas. Os espertos construíram, com a ajuda dos bobos, uma ilha cercada de bobos por todos os lados e nela vivem em regime de grande esperteza. Os espertos, que saíram do ventre dos bobos, adquiriram status diferente. Ao serem eleitos são inoculados do vírus da esperteza. E passam a usufruir das benesses que a ilha lhes preparou. Os bobos criaram termos como maracutaia e “vai-virar-em-pizza”, fazem piadas sobre os espertos, cochicham nos bares, balançam a cabeça, mas continuam bobos. Os espertos sabem disso e no “tim-tim” das viagens internacionais e no “oba-oba” das alianças de específico interesse ladino, dizem: eis lá embaixo, dando duro para nossa realeza, o povo bobo da “nossa Corte”! Qualquer semelhança com o Brasil é, claro, na visão dos bobos e dos espertos, foi e é “pura bobagem”!
